Com a Palavra

Ronaldo Lessa: Uma nova república dos Palmares

Os números demonstram que instituições como o Ministério Público, tão célere em resolver crimes que envolvam brancos e ricos, não agem da mesma maneira quando um jovem negro pobre é agredido ou morto.

Do alto da Serra da Barriga, em União dos Palmares, é possível contemplar uma paisagem que nos remete ao passado, quando homens negros, fugindo da escravidão, no século XVII, fundaram uma espécie de república numa região de difícil acesso, o que lhes permitiu resistir décadas ao poderio militar português. Seu principal líder, Zumbi, tornou-se símbolo da resistência à opressão, e o que se vê hoje, na Serra, homenageia seu espírito guerreiro. Na última segunda-feira, 20, data da sua morte, dia da Consciência Negra, houve celebrações, mas desviando o olhar para a planície, para o resto do Brasil, vemos que a luta de Zumbi não acabou, prossegue nos corações daqueles que ainda são discriminados por causa da cor da pele em nosso país.

Uma pesquisa divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) na semana passada, comprovou que dos 13 milhões de desempregados no terceiro trimestre deste ano, 8,3 milhões (63, 7%) eram pretos ou pardos. Constituem a maioria da força trabalhadora do Brasil, mas têm menos oportunidades, ganham mal e são os mais pobres. Sofrem agressões diárias, físicas ou morais. Morrem de forma violenta e predominam na população carcerária. Um quadro que imaginávamos diferente, quando nossas sucessivas constituições asseguraram que todos são iguais perante a Lei, porém, nos últimos anos, vimos recrudescer um racismo velado, por vezes explicitado, que nos deixa envergonhados.

Os números demonstram que instituições como o Ministério Público, tão célere em resolver crimes que envolvam brancos e ricos, não agem da mesma maneira quando um jovem negro pobre é agredido ou morto. Há pouco, um jovem ator negro foi espancado e roubado em São Paulo. Estava num terminal, após a encenação de uma peça, para pegar um dos três (isso mesmo, três) ônibus que o levaria para casa quando foi assaltado. Correu para pedir ajuda aos seguranças, mas os assaltantes disseram que ele é que era o bandido. Foi obrigado a entregar tudo e apanhou muito, mesmo jurando inocência. Não houve argumento, a cor da pele “falou” mais alto. Uma situação bizarra e dolorosa que se repete cotidianamente no Brasil que alardeia que aqui, não há preconceito.

Com fim da escravidão, no século XIX, os negros foram proibidos de estudar, ter trabalho digno e interagir com os brancos (não podiam jogar futebol, por exemplo). Os anos passaram e a luta dos movimentos sociais pela inclusão, mostrou-se vitoriosa em muitos aspectos, mas parece que estamos retroagindo. O atual governo é o símbolo desse retrocesso. Os negros, as mulheres, estão afastados do processo decisório. Talvez seja o caso de fundarmos uma nova república dos Palmares.

| RONALDO LESSA  é Engenheiro e Deputado Federal (PDT-AL)

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