A lipoaspiração pode aliviar a dor em mulheres com lipedema, uma doença crônica caracterizada pelo acúmulo desproporcional de tecido adiposo, principalmente nas pernas e, mais raramente, nos braços. A conclusão é de uma pesquisa publicada em setembro na revista científica The Lancet.
A análise acompanhou 410 mulheres com a doença durante 12 meses. Após esse período, 68% das participantes submetidas à cirurgia apresentaram redução de pelo menos dois pontos na intensidade da dor, em uma escala de zero a dez. Entre aquelas que continuaram apenas com o tratamento clínico conservador, a proporção foi de 8%.
Para chegar aos resultados, pesquisadores realizaram um ensaio clínico em 11 centros na Alemanha. Das 410 participantes, 278 foram submetidas à lipoaspiração associada ao tratamento clínico, enquanto 132 continuaram apenas com o tratamento conservador. Mas ainda não é possível dizer que o procedimento cirúrgico deve fazer parte do tratamento.
“O estudo representa um avanço importante ao demonstrar que a lipoaspiração pode reduzir substancialmente a dor e melhorar a qualidade de vida de mulheres com lipedema. Entretanto, os resultados precisam ser interpretados considerando os riscos, a falta de dados de longo prazo e as limitações da pesquisa”, pondera a cirurgiã vascular Andressa Cristina Sposato Louzada, do Einstein Hospital Israelita.
A melhora da dor observada no estudo pode envolver diferentes mecanismos, alguns dos quais ainda não são totalmente conhecidos. “O tecido adiposo acometido apresenta alterações estruturais que podem estar associadas a inflamação, fibrose e modificações da microcirculação. A retirada de parte desse tecido pode diminuir a tensão sobre estruturas adjacentes e a sobrecarga mecânica dos membros, além de facilitar a movimentação”, explica Louzada.
O lipedema é uma doença crônica que acomete predominantemente mulheres e pode surgir ou se agravar em períodos de alterações hormonais, como puberdade, gestação e menopausa. Além do aumento do volume dos membros, os sintomas incluem dor, hipersensibilidade ao toque, sensação de peso e facilidade para desenvolver hematomas. “Diferentemente da obesidade, na qual existe um aumento mais generalizado da gordura corporal, o lipedema apresenta uma distribuição característica, frequentemente desproporcional ao tronco”, explica a cirurgiã vascular.
Embora algumas estimativas apontem que o lipedema possa atingir cerca de 10% das mulheres, ainda não há uma estimativa populacional oficial para determinar a prevalência real da doença. O diagnóstico é baseado na história clínica da paciente e no exame físico. “Exames de imagem podem ajudar a investigar outras doenças ou condições associadas, mas não existe um exame isolado capaz de confirmar o lipedema com precisão”, diz Andressa Louzada.
O tratamento inicial recomendado é conservador e deve ser individualizado. Inclui atividade física regular, acompanhamento nutricional, controle do peso quando necessário, uso de meias de compressão e fisioterapia para melhorar a mobilidade e controlar o edema associado. “A drenagem linfática pode auxiliar no controle do inchaço, mas não elimina o tecido adiposo característico da doença”, observa a médica.
A lipoaspiração não é a primeira opção de tratamento e costuma ser considerada quando a paciente apresenta dor persistente que não melhora adequadamente com o tratamento clínico ou limitações funcionais que comprometem a mobilidade. “Não existe um período obrigatório de tratamento que se aplique a todos os casos. A decisão deve ser sempre individualizada, considerando os sintomas, as condições clínicas e os riscos envolvidos”, ressalta Louzada.
A cirurgia não deve ser encarada como uma cura para o lipedema. Como a doença é crônica e seus mecanismos ainda não são completamente compreendidos, não dá para afirmar que a retirada de parte do tecido adiposo por meio da cirurgia interrompa definitivamente sua progressão ou impeça o surgimento de novos sintomas.
Assim como qualquer outro procedimento cirúrgico, não é isento de riscos. No estudo, 47% das pacientes submetidas à lipoaspiração tiveram algum evento adverso. Entre as possíveis complicações da cirurgia estão hematomas, acúmulo de líquido, infecção, alterações de sensibilidade, anemia e irregularidades no contorno corporal. Entre as complicações mais graves estão trombose venosa profunda, embolia pulmonar, sangramento e lesões linfáticas.
Outro ponto é a duração dos benefícios. Como o estudo acompanhou as participantes por 12 meses, não é possível determinar se a redução da dor se mantém por períodos mais longos. “Ainda precisamos compreender melhor os resultados em longo prazo, identificar quais pacientes apresentam maior benefício e determinar se a cirurgia modifica efetivamente a evolução da doença”, avalia a cirurgiã vascular. “Portanto, o principal avanço é reconhecer que a lipoaspiração pode ser uma opção terapêutica eficaz para pacientes adequadamente selecionadas, e não apenas um procedimento de finalidade estética.”








