Receber o diagnóstico de câncer de mama, ter em mãos a prescrição do médico e descobrir que o plano de saúde não autorizou o tratamento é uma situação que pode gerar ainda mais insegurança em um momento já marcado por dúvidas e preocupações. A paciente pode ficar sem saber a quem recorrer justamente quando o tempo pode fazer diferença.
No Outubro Rosa, a advogada Jessika Coelho chama atenção para um problema que pode surgir durante o tratamento oncológico: a negativa de cobertura por parte dos planos de saúde. A orientação é para que as pacientes saibam como agir, quais documentos reunir e onde buscar ajuda caso tenham um medicamento ou procedimento recusado pela operadora de saúde.
Segundo Jessika, uma das principais dúvidas é saber o que fazer imediatamente após receber uma negativa. O primeiro passo é solicitar a resposta do plano por escrito e guardar a prescrição médica, os protocolos de atendimento, os comprovantes das solicitações e demais documentos relacionados ao tratamento.
O relatório médico também tem papel importante. O documento deve apresentar o diagnóstico, explicar por que determinado tratamento foi indicado e apontar os possíveis riscos caso haja atraso ou interrupção.
As dúvidas aumentam quando estão envolvidos medicamentos de alto custo. Um exemplo é o pembrolizumabe, conhecido comercialmente como Keytruda, utilizado em determinados casos de câncer de mama triplo negativo. Nessas situações, a negativa precisa ser analisada considerando a indicação médica, as características da doença, as regras de cobertura e o motivo apresentado pela operadora.
“Não basta receber um ‘não’ por telefone e ir para casa sem saber o que fazer. A paciente precisa pedir a negativa por escrito, guardar os protocolos e conversar com o médico para ter um relatório detalhado. Esses documentos são importantes para entender o caso e avaliar os próximos passos”, explica Jessika.
Além de procurar a ouvidoria do plano, a paciente pode registrar uma reclamação na Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Mas há situações em que esperar por sucessivas respostas administrativas pode não ser a melhor alternativa.
“É preciso considerar o tempo clínico. Se o médico informa que atrasar o tratamento pode trazer riscos, a paciente deve procurar orientação jurídica o quanto antes para saber quais medidas podem ser adotadas. Dependendo do caso, pode ser necessário avaliar uma medida judicial de urgência”, afirma.
Além da atuação como advogada, Jessika conhece de perto os desafios impostos pelo câncer de mama. Ela recebeu o primeiro diagnóstico em 2019 e passou por mastectomia e quimioterapia. Em 2024, enfrentou novamente a doença, desta vez com um tumor diferente, e precisou passar por uma nova mastectomia, além do esvaziamento da axila direita.
A experiência como paciente ampliou seu olhar para as dificuldades enfrentadas pelas mulheres depois do diagnóstico. Na atuação profissional, ela orienta sobre questões que podem surgir nesse período, como negativas de cobertura pelos planos de saúde, afastamento do trabalho, benefícios previdenciários e retorno às atividades profissionais.
“O diagnóstico muda a rotina inteira. A mulher está preocupada com a doença, com os filhos, com o trabalho e com o tratamento. Quando aparece uma negativa do plano, é mais um problema para resolver em um momento em que ela já está emocionalmente sobrecarregada. Por isso, informação faz tanta diferença”, diz.
Jessika ressalta que nem toda negativa significa que o plano agiu de forma irregular e que a existência de uma prescrição médica também não garante automaticamente a cobertura de qualquer tratamento. Cada situação precisa ser analisada individualmente, considerando a indicação médica, as regras de cobertura e a justificativa apresentada pela operadora de saúde.
Para ela, o Outubro Rosa também é uma oportunidade para falar sobre os desafios enfrentados depois do diagnóstico. Saber como agir diante de uma negativa, quais documentos guardar e onde buscar orientação pode evitar perda de tempo justamente quando a paciente precisa concentrar esforços no tratamento.
“A mulher não precisa conhecer todas as leis, mas precisa saber que pode questionar uma negativa e buscar orientação. No tratamento do câncer, informação e tempo são muito importantes”, reforça Jessika.







