Boa Saúde

Infectologista da Sesau destaca principais formas de prevenção ao HIV/Aids

A PEP é a utilização de antirretroviral após uma situação em que haja risco de infecção por HIV. A medicação deve ser tomada em até 72 horas e impede que o vírus se estabeleça no organismo.

infectologistaA infecção por HIV ainda não tem cura. Mas há medicamentos que podem minimizar os efeitos da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Aids) e auxiliar o portador a ter uma melhor qualidade de vida. Nos últimos anos, o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids passou a defender a prevenção combinada como forma de enfrentar a epidemia da Aids. Se antes o preservativo era indicado como a única forma segura de impedir que um indivíduo contraísse o vírus, hoje há outras maneiras de se prevenir.

Segundo a infectologista Mardjane Nunes, que é superintendente de Vigilância em Saúde da Sesau, o tratamento para todas as pessoas vivendo com HIV/Aids, a testagem regular para o HIV, as infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e as hepatites virais (HV), a Profilaxia Pós-exposição (PEP), a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), a prevenção da transmissão vertical, a imunização para a hepatite B (HBV) e HPV, a redução de danos, o diagnóstico e tratamento as pessoas com ISTs e HV, bem como o uso do preservativo e gel lubrificante são algumas dessas soluções.
A PEP é a utilização de antirretroviral após uma situação em que haja risco de infecção por HIV. A medicação deve ser tomada em até 72 horas e impede que o vírus se estabeleça no organismo.
“O ideal é que o indivíduo comece a tomar a medicação em até duas horas após a exposição ao HIV e no máximo após 72 horas. A eficácia da PEP pode diminuir à medida que as horas passam. Contudo, quando a pessoa começa a fazer muitas vezes o uso da PEP, é necessário realizar um trabalho de orientação muito bem feito, para alertar sobre a importância do uso do preservativo durante a relação sexual. Isso porque a profilaxia protege contra o vírus da Aids, mas não previne contra outras infecções sexualmente transmissíveis”, explicou a infectologista.

No caso de um possível contato com o HIV, seja nos casos de violência sexual e de profissionais de saúde que se acidentam com agulhas e outros objetos cortantes contaminados, o correto é buscar, o quanto antes, o atendimento nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) 24h, nos bairros Trapiche da Barra e Benedito Bentes, assim como no Hospital Escola Dr. Helvio Auto (HEHA). Esse primeiro atendimento é considerado de urgência porque o uso dos medicamentos deve começar o mais cedo possível.

Já a PrEP consiste no uso de medicamentos antes da exposição ao vírus, por indivíduos que estejam expostos a alto risco de infecção. De acordo com Mardjane Nunes, esse tratamento tem eficácia de 90%, mas ainda não está disponível em Alagoas.

Após o início do uso da PrEP, o efeito protetivo só começa após o sétimo dia de uso diário do medicamento para as relações envolvendo sexo anal. Já para as relações envolvendo sexo vaginal, a proteção só começa após 20 dias de uso diário. É preciso frisar que o remédio, evidentemente, só tem esse efeito protetivo para quem não tem o vírus. Quem já tem o vírus, não deve tomar a PrEP, porque o esquema para tratar é diferente do esquema para a profilaxia.

“Ao tomar o comprimido diariamente, a medicação pode impedir que o HIV se estabeleça e se espalhe pelo corpo. Ela de fato coloca o Brasil alinhado com o que há de mais avançado em termos de prevenção”, destacou.

Mas não são todas as pessoas que podem fazer o uso do medicamento na rede pública. Por enquanto a PrEP só é ofertada para as pessoas mais vulneráveis ao risco de infecção pelo HIV que são os homens que fazem sexo com homens (HSH), gays, população trans, trabalhadores e trabalhadoras do sexo e casais sorodiferentes (quando um já tem o vírus e o outro não). Além disso, este não é o único critério que é utilizado pelo Ministério da Saúde (MS): os profissionais de saúde só prescrevem a PrEP para pessoas que tenham uma maior chance de entrar em contato com o HIV, principalmente por não usarem preservativos nas relações sexuais.

Somente gay transmite o vírus HIV?
O Boletim Epidemiológico HIV/Aids mostra que 48,9% dos homens que contraíram HIV entre 2007 e junho de 2017 foram infectados em uma relação homossexual. Mas os outros 51,1%, ou seja, a maioria, estão espalhados entre infecções por relações heterossexuais (37,6%) e bissexuais (9,6%). Os que contraíram o vírus pelo uso de drogas injetáveis representam 2,9%, e as transmissões verticais, de mãe para filho, 1%.

Na análise dos casos registrados entre o público feminino, não há essa mesma divisão. Sendo assim, 96,8% das mulheres que se infectaram contraíram a doença em relação sexual, sendo a heterossexual a única opção analisada. Os outros casos são identificados como infecção por uso de drogas injetáveis (1,7%), transfusão de sangue (0,1%) e transmissão de mãe para filho (1,4%).
Laço Vermelho
Foi aos 20 anos que M., hoje com 38, descobriu que tinha contraído o vírus HIV após um sexo casual. Um dia, enquanto trabalhava em Belém do Pará, município brasileiro situado na região Norte do País, M. sentiu o rosto inchar, o estômago doer e, como se não bastasse, o aumento do número de evacuações durante o dia lhe causavam suor frio que não estava relacionado ao calor, tampouco esforço físico.

Até então, não fazia a menor ideia de que era soropositivo – o teste foi feito numa bateria de exames de rotina da empresa. “Depois começou a aparecer manchas vermelhas por todo meu corpo e as dores fortes no estômago me impossibilitavam de comer, fazendo com que eu reduzisse as porções a cada refeição”, recordou, com aquela facilidade que as pessoas costumam se lembrar de tudo que marca muito a vida.

Naquele dia, ele não foi trabalhar. Nem nos dias seguintes. Foi obrigado a deixar o emprego. Teve complicações devido à imunidade baixa, entre as quais a sífilis, hepatites virais e tuberculose. Com isso, atingia-se o estágio mais avançado da doença, a Aids.

De acordo com M., nas relações sexuais que manteve tanto com homens quanto com mulheres, a camisinha e o gel lubrificante eram sempre deixados de escanteio. À época, ele se escondia no “armário” a fim de evitar represálias da sociedade. Pelos seus cálculos, acredita que numa de suas saídas acabou transando com uma mulher sem preservativo numa boate e, logo após esse episódio, o seu corpo passou a ter reações estranhas. Mesmo assim, M. não sabe ao certo quem o transmitiu o vírus e, até onde tem notícias, não passou para ninguém.

“Parece que você está caindo no abismo quando descobre a doença. Ou você é forte naquele momento, ou você desaba de vez, sem pestanejar. Devido ao medo e o desespero, segurei a informação durante três anos para minha família e amigos mais próximos, justamente para não vê-los sofrer. E, claro, eu não queria aceitar, de jeito nenhum, que estava infectado. Por ser reticente ao uso das medicações, cheguei a ter três paradas cardiorrespiratórias e pesar aproximadamente 38 quilos. O estágio de fraqueza era tamanho que eu não conseguia andar”, descreveu, emocionado.

“Eu quis tirar a minha própria vida várias vezes. Era inconcebível pensar em algo positivo. Nesse tempo eu não me envolvi com ninguém, fiquei bloqueado, com receio de amar novamente”, relatou. Após essa fase turbulenta, M. buscou informações a respeito da doença. Teve anos bons e tranquilos, nos quais começou a reconstruir a vida. E então começou a viver. Ele explicou que, em alguns casos, é mais fácil uma pessoa contrair o vírus transando com alguém que não sabe que tem o vírus do que com quem tem HIV e faz o tratamento. Isso porque, no segundo caso, a carga viral é em geral indetectável, difícil de ser transmitida.
M. revela, contudo, que se tivesse usado a camisinha durante o ato sexual, nada disso teria acontecido.

“Receber o diagnóstico não é fácil. Mas depois, com o tempo, você aprende que errar é humano e para de se culpar por uma série de coisas e, principalmente, começa a ter cuidado não só com a sua saúde, mas, também, com a pessoa que está ao seu lado, compartilhando vida e sonhos com você”, avalia.

Hoje ele tem um parceiro e, além do coquetel anti-HIV, previnem-se com a camisinha e o gel lubrificante, assim como os exames de sangue de rotina. Sua aparência, porém, não é a de um doente. Magro, de estatura mediana, o homem é dotado de uma dose tímida, que costuma soar simpática, conferindo-lhe um ar eternamente juvenil.

“Meter medo não funciona mais. Não estamos mais na época de apontar culpados, mas de resolver as coisas e mostrar soluções. O ser humano falha, erra. Visitar o médico, aprender sobre o HIV, e perceber que é possível viver bem com a Aids, ajuda muito a desnudar o assunto nas páginas da internet, nas rodas de conversas com os amigos e família ou em meios de comunicação”, disse, em tom reflexivo.

 

Fonte: Assessoria

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