Com a Palavra

Diógenes Tenório Júnior: Três ausências

Os três meus amigos, os três médicos exemplares, as três pessoas que, tanto no exercício da profissão quanto na vida em sociedade, deixaram-nos exemplos edificantes de serviço ao próximo.

A morte, a tirana morte, essa senhora antipática que se compraz em roubar da nossa companhia tantos afetos que nos são caros, passou a sua foice afiada na medicina alagoana e tirou do nosso meio, em pouco mais de duas semanas, Paulo Vitório Pereira, Gisélia Campos e Antônio de Pádua Cavalcante. Os três meus amigos, os três médicos exemplares, as três pessoas que, tanto no exercício da profissão quanto na vida em sociedade, deixaram-nos exemplos edificantes de serviço ao próximo.

É triste, muito triste mesmo, quando vai-se embora um médico que sabe enxergar em seus pacientes não somente um número de prontuário, não apenas um destinatário de remédios e de exames, mas um semelhante que se encontra no momento mais fragilizado da sua existência, que é o da doença. Por simples que seja a enfermidade que o acomete, o doente logo se vê em seu maior grau de impotência, em seu absoluto abandono nas mãos alheias. E quando ele tem a desventura de cair nas garras de um médico que sequer olha nos seus olhos, que nem ao menos lhe anima com um sorriso encorajador, aí a sua desdita aumenta exponencialmente, acarretando ao seu espírito já combalido um ônus difícil de suportar. Minha mãe, em seus dias finais, amargou esse fel: terminal de um câncer em avançado estado de metástase, encontrou em seu caminho uma oncologista que, se possuía a capacidade técnica que todos apregoavam, não tinha em seu coração de pedra um resquício sequer de compaixão nem de respeito à dor do outro. E a minha doce velhinha, como se já não lhe bastasse a doença cruel, ainda teve que sofrer o golpe da falta de sensibilidade de quem deveria, ao menos em obediência ao juramento que proferiu, lançar sobre ela um tantinho de misericórdia.

Os meus três amigos que recentemente partiram, graças a Deus, não rezavam por essa cartilha atroz. Foram médicos de verdade, atentos às sutilezas emocionais de cada paciente. Ouviam-lhes as queixas, escutavam-lhe as reclamações, prestavam atenção em cada sintoma que lhes era relatado. Não se interessavam só pelas patologias e seus sintomas; viam a pessoa que lhes batia à porta do consultório, interessavam-se por ela, queriam saber das suas aflições – mais do que isso: ansiavam ao menos minorá-las, quando não lhes fosse possível extingui-las de vez. Dr. Paulo Vitório, dra. Gisélia e dr. Antônio de Pádua nunca falharam na nobre missão de ajudar aos que sofrem. O exemplo que eles deixaram deveria ser estudado nas faculdades; talvez assim tivéssemos mais humanidade e menos automatismo nos corredores dos hospitais.

Diógenes Tenório Júnior – Advogado e Membro da AAL e do IHGAL

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