Com a Palavra

Ronaldo Lessa: A dignidade na política

O político digno não vira as costas, ouve, nem sem sempre vai conseguir resolver tudo, porém lutará para que o pleito não seja um “grito silencioso”.

As cenas de políticos brasileiros sendo hostilizados em aeroportos e restaurantes chocam, mais pelo caráter simbólico de que deveriam ser açoitados em praça pública, do que pela injusta generalização de que todos são iguais no exercício do cargo. A mídia tem incentivado a aversão sem levar em conta que há, sim, políticos trabalhando com dignidade e denodo pelo bem da sociedade. São pessoas que mesmo diante das adversidades seguem fazendo o que acham justo e certo, apesar da intolerância e do preconceito.

Durante uma audiência no Vaticano, o papa Francisco afirmou que envolver-se na política é uma obrigação para um cristão: “Nós, cristãos, não podemos nos fazer de Pilatos e lavar as mãos. Não podemos! Devemos nos envolver na política porque a política é uma das formas mais elevadas da caridade, porque ela procura o bem comum”, disse. As palavras repercutiram e levaram à reflexão. Por que Francisco não fez uma reprimenda? Seria fácil julgar e condenar. Mas o papa exortou o envolvimento na política sabendo que cada um de nós é responsável pelo todo, e a consolidação disso se faz pelo voto, pelo exercício da democracia.

Durante o recesso parlamentar, intensifiquei minhas viagens pelo interior de Alagoas. Em cada uma das cidades visitadas, recebi manifestações de apreço, mas também pedidos, pessoais, por vezes, mas principalmente solicitações inerentes às dificuldades que setores, notadamente, agrícolas, atravessam. Não senti essa raiva expressa pela imprensa e pelas redes sociais. As pessoas estão preocupadas com suas comunidades e com o país, e sabem que o político honesto e digno é o caminho para resolver o problema da água que falta, da semente que não chega, do hospital que precisa de medicamentos. O político digno não vira as costas, ouve, nem sem sempre vai conseguir resolver tudo, porém lutará para que o pleito não seja um “grito silencioso”.

Há momentos em que, ao longo da trajetória, o político digno se pergunta: tudo isso vale a pena? E a resposta é: sim, vale a pena. Longe do clientelismo, uma sociedade atendida nas suas necessidades básicas, mediante uma ação de governo, uma ação política, significa que o mandato foi exercido em nome de todos, pelo bem comum, com frisou o papa.

Portanto, antes de dizer que todos os políticos são iguais, devemos nos debruçar sobre a vida pública e pesquisar para saber que retorno a sociedade recebeu daquele a quem, momentaneamente, estamos atirando pedras. Isso nos faz cidadãos, e a cidadania elege os homens que vão conduzir nosso destino. Em suma, tudo depende de nós.

| RONALDO LESSA é engenheiro e deputado federal (PDT-AL)

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