Com a Palavra

Diógenes Tenório Junior: Apenas um matuto

Jamais deixei de ser quem eu era de verdade, somente um menino espantado e boquiaberto diante do vasto mundo que precisava ser compreendido e explorado.

Digo e não peço segredo, sabem os que me conhecem: tenho orgulho de ser matuto de origem, de ter sido feito gente na minha pequena Murici, às margens do rio Mundaú, contemplando os imensos canaviais da fazenda Cansanção, defronte ao meu pequeno quintal enladeirado. Muitas vezes passeei vagarosamente à beira da estrada de terra, no finzinho da tarde, cortando capim para a minha criação de preás e me encantando com as nuances do verde que se tornou, desde então, a minha cor preferida. Nos muitos invernos que a minha infância testemunhou – “mês de junho, com chuva e céu nublado”, como eu disse num verso – aprendi a admirar a força da natureza, que estrondava em trovões e iluminava em relâmpagos faiscantes, espetáculo precioso que nunca mais se apagou das minhas retinas fatigadas.

Quem se cria no interior leva consigo, vida afora, as marcas benéficas do aprendizado que somente as cidades pequenas são capazes de proporcionar. Há todo um conjunto de circunstâncias que, somadas umas às outras, constituem um riquíssimo mosaico capaz de compor, em grande parte, a personalidade dos que ali dão os primeiros passos da sua existência. A capital oferecia aos da minha época a tecnologia, a chance de progredir, a sedução do que havia de mais moderno e avançado; mas somente as ruas da cidade natal, que acolhem os nossos passos indecisos e vacilantes de criança, conseguem nos dar o prumo necessário para seguir em frente nos muitos caminhos que a vida há de nos oferecer. Saímos da nossa terra, mas ela não sai de nós, segue grudada em nossa alma como uma tatuagem indelével, confirmando os belos versos de Ferreira Gullar: “A cidade está no homem/ quase como a árvore voa/ no pássaro que a deixa”.

O grande Belchior, que há pouco faleceu, cantou que era “apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes e vindo do interior”. Esse também fui eu. Quando cheguei a Maceió, mal entrado na adolescência, os largos corredores do Colégio Marista punham-se diante de mim como uma pista olímpica a ser vencida. Os garotos com as suas gírias, as meninas com os seus salamaleques, os professores com a sua pouca intimidade, tão diferentes das “tias” que eu deixara para trás, o barulho, a correria, a pressa e a pressão – tudo me parecia demasiadamente grande e dificultoso. No silêncio dos meus temores e das minhas angústias, aprendi a sobreviver. Mas jamais deixei de ser quem eu era de verdade, somente um menino espantado e boquiaberto diante do vasto mundo que precisava ser compreendido e explorado.

| DIÓGENES TENÓRIO JÚNIOR é advogado e membro da AAL e do IHGAL

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