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Diógenes Tenório Junior: Alguns doidinhos

Toda cidade do interior que se preze possui os seus doidos de estimação. São pessoas que andam pelas ruas todos os dias, o dia todo, cada um com os seus apelidos, as suas manias, as características físicas e psicológicas que os tornam figuras indissociáveis do panorama local, componentes das memórias afetivas mais ricas de diversas gerações. Se por vezes assustam as crianças menores, aos poucos vão conquistando a simpatia dos jovens e dos adultos, tornando-se uma espécie de parentes próximos de todo mundo.

Em Murici não era diferente, no tempo em que eu fui criança e adolescente. João Balaio, com as calças sempre arregaçadas, os pés descalços, um chapéu de palha na cabeça e um pedaço de pau na mão, batia a cidade toda com o seu passinho cadenciado, como se estivesse prestes a pegar carreira. Diziam que ele corria bicho nas noites de lua cheia, e nós quase morríamos de medo quando ele vinha em nossa direção, resmungando coisas que nunca conseguíamos compreender. Quando um menino mais afoito o chamava de “canela de socó”, o tempo fechava para o nosso lado: ele apanhava a primeira pedra que visse no chão e jogava com força para atingir quem de nós mais demorasse a se esconder. Morreu velhinho, na Casa de São Vicente, para onde fora levado pela generosidade da minha madrinha Eurides Oliveira, e onde eu tirei a única foto que dele ficou. Num casebre perto do matadouro morava Maria Doida, uma idosa esmolambada que perambulava com uma sacola de feira em busca de donativos. Não mexia com ninguém, mas a sua imagem nos lembrava a das bruxas dos contos de fada, o que era suficiente para nós corrermos assim que ela apontava na esquina do Bar da Neuza. Brava mesmo era Criança, uma mulher de meia-idade com olhos verdes faiscantes, cabelos grisalhos desgrenhados e uma saia curtíssima que deixava à mostra os seus joelhos de rebolo; era a cara da Madame Min, personagem dos gibis do Tio Patinhas, e muitas vezes eu tive pesadelos pavorosos com ela, sonhando que estava sendo sequestrado para a Rua da Floresta, onde ela ocupava os fundos da humilde casa de uma sobrinha. As meninas temiam mais ao Zé Lala, um moreno alto com traços de mexicano que costumava ficar na beira do rio, tarando as mulheres que iam lavar roupa no Mundaú. Bastava ele aparecer na cabeça da ponte e as minhas amigas de infância largavam o jogo de queimado ou de avião, batendo em retirada para a segurança das suas casas.

A fisionomia de cada um deles ficou gravada na minha memória. Ponho-os nas minhas orações, mesmo sem saber-lhes os nomes verdadeiros. O bom Deus sabe, e é o que importa.

Diógenes Tenório Júnior é advogado e membro da AAL e do IHGAL.

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